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Biografias Africanidade

Bravas guerreiras da África Ocidental repeliram com sucesso invasores europeus

Amazonas de Daomé, guerreiras africanas

26/06/2020 às 22h13
Por: Horacio mahumane Fonte: Africa Profunda
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Bravas guerreiras da África Ocidental repeliram com sucesso invasores europeus

A história de um exército de mulheres guerreiras que aterrorizou os franceses durante o século XIX, parece ficção mas é real.

As Ahosi (“esposas do rei” em Fon) ou Mino (“nossas mães”), como eram chamadas as mulheres treinadas militarmente para serem guardiãs do rei do Daomé, região da atual República do Benin, não só existiram como foram um dos exércitos mais prósperos do continente africano durante as incursões coloniais europeias.

Os primeiros registros de existência datam do século XVII (entre 1645 e 1685) durante o reinado de Aho Houegbadja, terceiro rei do Daomé e fundador da capital do reino Abomey.

Além de promulgar leis, desenvolver a cultura política, a religião e a administração, o rei Houegbadja criou esse exército que chegou a ter 6 mil mulheres em seu auge, cerca de um terço do exército daomeano. Um dos fatores de sucesso sobre os inimigos europeus era a surpresa.

Homens brancos treinados para lutar com outros homens, que viam mulheres como seres fisicamente inferiores, sob o estereótipo de passividade e docilidade ficavam aterrorizados.

Nansica, uma jovem soldada do reino de Daomé, no atual Benin, de cerca de 16 anos, se aproxima rapidamente de um sargento francês e o decapita com furor.

Em seguida, tem seu corpo atravessado por uma baioneta e tomba de costas, braços estendidos para a frente. Na mesma batalha, um soldado gabonês de infantaria, recrutado pelos franceses, desarma outra militar de Daomé. Sem opção, ela rasga a garganta do inimigo com os próprios dentes.

Apesar de a França ter conquistado Daomé em 1894, após duas guerras num período de 4 anos, a ferocidade das mulheres que compunham 1/3 das tropas do país africano ao longo do século 19 impressionou visitantes e soldados estrangeiros.

“O valor das amazonas é real. Treinadas desde a infância com os mais árduos exercícios, constantemente incitadas à guerra, elas levavam às batalhas uma fúria verdadeira e um ardor sanguinário... Inspirando com sua coragem e sua energia indomável tropas que as seguiam”, escreveu em 1895 o major francês Léonce Grandin, que lançou Le Dahomey: À l'Assaut du Pays des Noirs, em que analisa a guerra na qual lutou.

“Notavelmente bravas”, “extraordinárias por sua coragem e ferocidade” e de “tenacidade selvagem” são algumas das características atribuídas a elas por combatentes franceses em diários escritos no calor das batalhas.

Donas do palácio

Mulheres lutando em exércitos não eram novidade. Mas um exército de mulheres, sim. Esqueça as lendárias amazonas da Grécia antiga, que estão no terreno do mito. Como escreve o jornalista e pesquisador Stanley B. Alpern em Amazons of Black Sparta (Amazonas da Esparta Negra), "na verdade, as únicas amazonas documentadas da História são o tema deste livro".

Para a autora de Wives of the Leopard: Gender, Politics and Culture in the Kingdom of Dahomey (Esposas do Leopardo: Gênero, Política e Cultura no Reino de Daomé), Edna G. Bay, elas talvez nem fossem tão melhores e mais ferozes que seus companheiros de armas. “Mas a visão de mulheres combatentes foi um choque para os franceses”, comenta ela.

As mulheres soldados e oficiais do exército de Daomé moravam no palácio do rei e eram tão respeitadas e poderosas que, quando andavam pelas ruas, os homens comuns deviam dar um passo atrás para abrir caminho e olhar para o outro lado: não podiam dirigir seu olhar a elas. Usavam uniformes, carregavam bandeiras e cantavam hinos.

Acostumadas desde cedo a um treinamento rigoroso, eram grandes guerreiras, fortes, velozes, que escalavam paredões, empunhavam espadas, machadinhas e punhais com vigor e, armadas com espingardas, atiravam com boa mira.

Decapitavam sem pena. Estavam, normalmente, na linha de frente dos ataques aos reinos inimigos, à frente dos homens. Esparta das mulheres As militares não eram as únicas mulheres com poder na sociedade de Daomé, cuja etnia principal era a fon e onde havia a prática do vodu. Outras estavam em posições-chave na política e em cargos burocráticos. “Isso não era incomum na África Ocidental, onde em muitos reinos havia, por exemplo, a figura da rainha-mãe. Mas Daomé levou isso ao extremo. Em nenhum outro lugar havia tropas inteiras de combatentes femininas, em toda a história”, ressalta Edna Bay.

Como um exército de mulheres surgiu naquele lugar particular da África do século 19 é algo que gera discussões e questionamentos. Mas acredita-se que as origens das tropas femininas de Benin estejam em dois grupos.

O de mulheres caçadoras de elefantes, comuns nos séculos 17 e 18, ou o mais provável: o de guardas do palácio real. Apenas mulheres e eunucos podiam guardar os aposentos do rei e de suas centenas de esposas. Mas no Benin tais sentinelas teriam evoluído para a formação de uma guarda pretoriana do governante. Havia cerca de 6 mil mulheres no palácio, entre esposas do rei, guardas, administradoras, funcionárias. “As mulheres eram criadas, desde a infância, para serem leais à sua família de nascença e à família do marido”.

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